Até que ponto as frequências observadas nos resultados históricos da Mega-Sena são compatíveis com as probabilidades calculadas a partir de um modelo em que todos os sorteios de seis dezenas entre 01 e 60 são igualmente prováveis?
Nesta atividade serão utilizados os resultados oficiais dos concursos da Mega-Sena, divulgados pela Caixa Econômica Federal. Em cada concurso são sorteadas seis dezenas distintas dentre as dezenas 01 a 60.
A base contém 3.048 concursos realizados entre 11/03/1996 e 23/08/2026.
Para cada concurso estão disponíveis o número do concurso, a data e as seis dezenas sorteadas.
Fonte: Loterias CAIXA – Mega-Sena
https://loterias.caixa.gov.br/Paginas/mega-sena.aspx
API utilizada pelo portal:
https://servicebus2.caixa.gov.br/portaldeloterias/api/megasena
Considerando o modelo em que todas as combinações de seis dezenas são equiprováveis,
\[ |\Omega| = \binom{60}{6} = 50.063.860. \]
A atividade compara probabilidades calculadas nesse modelo com frequências observadas nos concursos históricos.
Antes de analisar os dados, responda utilizando apenas o modelo probabilístico.
Qual é a probabilidade de uma determinada dezena, por exemplo a dezena 10, aparecer em um sorteio?
Qual é a probabilidade de exatamente três das seis dezenas sorteadas serem pares?
Qual é a probabilidade de todas as seis dezenas sorteadas serem pares?
As combinações
\[ \{01,02,03,04,05,06\} \qquad\text{e}\qquad \{07,19,28,36,44,59\} \]
têm a mesma probabilidade? Justifique.
Em uma sequência de \(n\) concursos, quantas vezes você esperaria, aproximadamente, que uma determinada dezena aparecesse?
Para uma dezena fixada,
\[ P(\text{dezena sorteada}) = \frac{\binom{59}{5}}{\binom{60}{6}} = \frac{6}{60} = 0{,}10. \]
Portanto, nos 3.048 concursos, o número esperado de aparições de uma dezena específica é
\[ 3.048 \times 0{,}10 = 304,8. \]
A dezena 10 apareceu em 356 concursos, correspondendo à frequência
\[ \frac{356} {3.048} \approx 11,68\%. \]
O gráfico abaixo apresenta as frequências observadas das 60 dezenas.
A linha tracejada representa a probabilidade teórica de 10%. A faixa cinza foi construída por meio de 2.000 simulações de forma que, sob o modelo, em cerca de 95% das simulações as frequências das 60 dezenas ficassem simultaneamente dentro da faixa.
A região obtida foi
\[ 8,22\% \leq \widehat p_j \leq 11,78\%, \qquad j=1,\ldots,60. \]
A maior frequência observada foi a da dezena 10:
\[ \frac{356} {3.048} \approx 11,68\%. \]
A menor frequência observada foi a da dezena 26:
\[ \frac{250} {3.048} \approx 8,20\%. \]
A dezena 26 ficou ligeiramente abaixo do limite inferior da faixa. Isso não significa, por si só, que o modelo seja inadequado: mesmo quando o modelo é correto, em cerca de 5% das repetições sob o modelo, pelo menos uma das 60 frequências ficaria fora dessa faixa.
Considere o evento em que todas as seis dezenas sorteadas pertencem ao conjunto \(\{1,\ldots,30\}\). Sob o modelo equiprovável,
\[ P(\text{todas as dezenas}\leq30) = \frac{\binom{30}{6}} {\binom{60}{6}} \approx 1,19\%. \]
Nos 3.048 concursos analisados, esse evento ocorreu em 34 sorteios, correspondendo à frequência
\[ \frac{34} {3.048} \approx 1,12\%. \]
Assim, a probabilidade teórica é aproximadamente 1,19%, enquanto a frequência observada foi aproximadamente 1,12%.
Esse exemplo também mostra que eventos definidos de maneiras diferentes podem ter a mesma probabilidade. Por exemplo, “todas as dezenas são pares”, “todas as dezenas são ímpares” e “todas as dezenas são menores ou iguais a 30” exigem, em cada caso, que as seis dezenas pertençam inteiramente a um subconjunto fixado de 30 elementos.
Se \(X\) representa o número de dezenas pares entre as seis sorteadas, então
\[ P(X=k) = \frac{ \binom{30}{k} \binom{30}{6-k} }{ \binom{60}{6} }, \qquad k=0,1,\ldots,6. \]
O gráfico compara, para todos os valores possíveis de \(k\), a distribuição prevista pelo modelo com as frequências observadas nos 3.048 concursos.
Por exemplo,
\[ P(X=3) = \frac{\binom{30}{3}\binom{30}{3}} {\binom{60}{6}} \approx 32,93\%. \]
A frequência observada foi
\[ 30,77\%. \]
Nos casos extremos,
\[ P(X=0) = P(X=6) = \frac{\binom{30}{6}} {\binom{60}{6}} \approx 1,19\%. \]
As frequências observadas foram aproximadamente
Cada concurso também pode ser resumido por
\[ L=\min(X_1,\ldots,X_6), \qquad U=\max(X_1,\ldots,X_6), \qquad \overline X=\frac{X_1+\cdots+X_6}{6}. \]
Para que \(L=l\), a dezena \(l\) deve estar presente e as outras cinco devem ser escolhidas entre \(l+1,\ldots,60\). Logo,
\[ P(L=l) = \frac{\binom{60-l}{5}} {\binom{60}{6}}, \qquad l=1,\ldots,55. \]
Segundo o modelo, a moda é \(L=1\), com probabilidade
10,00%.
Nos dados, a moda observada também foi 1, com frequência
\[ \frac{297} {3.048} \approx 9,74\%. \]
O maior valor observado para o mínimo foi 50.
Analogamente,
\[ P(U=u) = \frac{\binom{u-1}{5}} {\binom{60}{6}}, \qquad u=6,\ldots,60. \]
Segundo o modelo, a moda é \(U=60\), com probabilidade
10,00%.
Nos dados, a moda observada também foi 60, com frequência
\[ \frac{295} {3.048} \approx 9,68\%. \]
O menor valor observado para o máximo foi 22.
Há uma simetria natural entre as duas distribuições:
\[ P(L=l)=P(U=61-l). \]
A transformação
\[ x\longmapsto61-x \]
troca valores pequenos por grandes e leva cada combinação possível em outra combinação possível. Por isso, a distribuição teórica do máximo é a imagem espelhada da distribuição teórica do mínimo.
Como a média das dezenas \(1,\ldots,60\) é
\[ \frac{1+60}{2}=30{,}5, \]
temos
\[ E(\overline X)=30{,}5. \]
Para uma dezena escolhida ao acaso em \(\{1,\ldots,60\}\),
\[ \operatorname{Var}(X) = \frac{60^2-1}{12}. \]
Como o sorteio é feito sem reposição,
\[ \operatorname{Var}(\overline X) = \frac{\operatorname{Var}(X)}{6} \frac{60-6}{60-1}, \]
de modo que
\[ \operatorname{DP}(\overline X) \approx 6,76. \]
Os valores observados foram muito próximos dos previstos pelo modelo:
| Medida | Modelo teórico | Dados observados |
|---|---|---|
| Média | 30,5 | 30,5 |
| Desvio-padrão | 6,76 | 6,66 |
A menor média observada foi 10,5 e a maior foi 55,17.
Considere as combinações
\[ \{01,02,03,04,05,06\} \qquad\text{e}\qquad \{07,19,28,36,44,59\}. \]
Sob o modelo equiprovável, qualquer combinação específica tem probabilidade
\[ P(\text{combinação específica}) = \frac{1}{\binom{60}{6}} = \frac{1} {50.063.860}. \]
Portanto, as duas combinações têm exatamente a mesma probabilidade, embora uma delas possa parecer visualmente menos aleatória.
Nos 3.048 concursos analisados,
A presença de números consecutivos também pode parecer pouco aleatória. Para calcular sua probabilidade, é mais simples considerar inicialmente o evento complementar.
Se
\[ 1\leq x_1<\cdots<x_6\leq60 \]
não contém números consecutivos, a transformação
\[ y_i=x_i-(i-1) \]
produz uma escolha arbitrária de seis números entre 1 e 55. Assim,
\[ P(\text{nenhum par consecutivo}) = \frac{\binom{55}{6}} {\binom{60}{6}}. \]
Logo,
\[ P(\text{pelo menos um par consecutivo}) = 1- \frac{\binom{55}{6}} {\binom{60}{6}} \approx 42,09\%. \]
Nos dados históricos, houve pelo menos um par de dezenas consecutivas em 1279 dos 3.048 concursos.
A frequência observada foi aproximadamente
\[ 41,96\%. \]
Esse exemplo mostra que um padrão visualmente marcante pode ter probabilidade relativamente alta sob o modelo equiprovável.
Uma aposta da Mega-Sena pode conter mais de seis dezenas. Isso introduz duas questões diferentes:
Suponha que sejam escolhidas \(m\) dezenas e que \(X\) represente quantas delas aparecem entre as seis sorteadas.
Para obter exatamente \(k\) acertos,
\[ P(X=k) = \frac{ \binom{m}{k} \binom{60-m}{6-k} }{ \binom{60}{6} }. \]
Para apostas contendo 6, 7, 8 ou 10 dezenas:
| Dezenas apostadas | 4 acertos | 5 acertos | 6 acertos |
|---|---|---|---|
| 6 | 0,04288% | 0,0006472% | 0,000001997% |
| 7 | 0,09634% | 0,0022232% | 0,000013982% |
| 8 | 0,18540% | 0,0058166% | 0,000055929% |
| 10 | 0,51384% | 0,0251679% | 0,000419464% |
A probabilidade de acerto aumenta à medida que cresce o número de dezenas escolhidas.
Uma aposta com \(m\) dezenas contém
\[ \binom{m}{6} \]
combinações distintas de seis dezenas.
Para os valores considerados nesta atividade:
| Dezenas apostadas | Combinações simples | Chance de Sena (1 em) |
|---|---|---|
| 6 | 1 | 50.063.860 |
| 7 | 7 | 7.151.980 |
| 8 | 28 | 1.787.995 |
| 10 | 210 | 238.399 |
Assim,
\[ \binom{6}{6}=1,\qquad \binom{7}{6}=7,\qquad \binom{8}{6}=28,\qquad \binom{10}{6}=210. \]
Portanto, a probabilidade de a aposta conter todas as seis dezenas sorteadas é
\[ P(\text{Sena com }m\text{ dezenas}) = \frac{\binom{m}{6}} {\binom{60}{6}}. \]
A chance de Sena cresce exatamente na mesma proporção que o número de combinações simples contidas na aposta.
Se o custo de uma aposta múltipla for proporcional ao número de combinações simples que ela contém, então uma aposta de \(m\) dezenas custa \(\binom{m}{6}\) vezes o valor de uma aposta simples e também multiplica por \(\binom{m}{6}\) a probabilidade de Sena. Nesse sentido, não há ganho de probabilidade por unidade de custo apenas por concentrar várias combinações em uma única aposta múltipla.
Há agora uma segunda contagem.
Suponha que uma aposta de \(m\) dezenas contenha as seis dezenas efetivamente sorteadas. Entre as \(\binom{m}{6}\) combinações simples contidas nessa aposta, podemos perguntar quantas têm 6, 5 ou 4 acertos.
Se uma combinação interna tiver exatamente \(k\) acertos, devemos escolher \(k\) das seis dezenas sorteadas e completar a combinação com \(6-k\) das \(m-6\) dezenas restantes da aposta. Portanto,
\[ N_k = \binom{6}{k} \binom{m-6}{6-k}. \]
Para a Sena,
\[ N_6 = \binom{6}{6} \binom{m-6}{0} = 1. \]
Para a Quina,
\[ N_5 = \binom{6}{5} \binom{m-6}{1} = 6(m-6). \]
Para a Quadra,
\[ N_4 = \binom{6}{4} \binom{m-6}{2}. \]
| Dezenas apostadas | Sena | Quinas | Quadras |
|---|---|---|---|
| 6 | 1 | 0 | 0 |
| 7 | 1 | 6 | 0 |
| 8 | 1 | 12 | 15 |
| 10 | 1 | 24 | 90 |
Assim, uma aposta simples de seis dezenas que acerta a Sena contém apenas uma combinação premiada: a própria Sena.
Já uma aposta múltipla pode produzir outros prêmios. Por exemplo, se uma aposta de oito dezenas contém as seis dezenas sorteadas, suas 28 combinações simples incluem
\[ 1 \text{ Sena}, \qquad 12 \text{ Quinas}, \qquad 15 \text{ Quadras}. \]
Essa contagem é diferente da probabilidade de obter exatamente 4, 5 ou 6 acertos. A primeira pergunta é feita antes do sorteio e diz respeito ao número de dezenas sorteadas que pertencem à aposta. A segunda é feita condicionalmente ao resultado da aposta múltipla e conta quantas das combinações simples contidas nela recebem cada tipo de premiação.
As questões a seguir têm o objetivo de verificar a compreensão das ideias, resultados e interpretações apresentados ao longo do texto.
No gráfico das frequências das 60 dezenas, por que as frequências observadas não são todas iguais a 10%? Esse comportamento é compatível com o modelo equiprovável? Explique.
Algumas dezenas aparecem mais vezes do que outras. Esse fato é incompatível com o modelo de equiprobabilidade?
Como deve ser interpretado o fato de a dezena 26 ter ficado ligeiramente fora da faixa simultânea de referência?
A frequência da dezena 10 foi aproximadamente 11,68%, enquanto o modelo prevê 10%. Essa diferença, isoladamente, fornece evidência contra o modelo?
Uma dezena que não aparece há vários concursos está “atrasada”? Os resultados anteriores alteram sua probabilidade no próximo sorteio?
Por que as distribuições do mínimo e do máximo apresentam formas espelhadas?
Compare a média e o desvio-padrão observados de \(\overline X\) com os respectivos valores previstos pelo modelo. O que essa comparação sugere sobre a adequação do modelo aos dados?
Por que sequências contendo dezenas consecutivas podem parecer improváveis mesmo tendo probabilidade de aproximadamente 42%?
Retome a questão orientadora da atividade: até que ponto as frequências observadas nos resultados históricos da Mega-Sena são compatíveis com as probabilidades previstas pelo modelo equiprovável? Justifique sua resposta utilizando as análises realizadas ao longo da atividade.
Uma aposta de 8 dezenas que contém as seis dezenas sorteadas gera, além de uma Sena, 12 Quinas e 15 Quadras. Explique, utilizando coeficientes binomiais, de onde vêm esses números.
Nesta atividade comparamos duas quantidades distintas:
\[ \underbrace{P(A)}_{\text{probabilidade no modelo}} \qquad\text{e}\qquad \underbrace{ \frac{\text{número de concursos em que ocorreu }A} {\text{número total de concursos}} }_{\text{frequência relativa nos dados}}. \]
As probabilidades pertencem ao modelo; as frequências são calculadas a partir dos dados. Em uma sequência finita de sorteios, não se espera que sejam exatamente iguais.
Quando muitas características são examinadas ao mesmo tempo, como as frequências das 60 dezenas, é necessário considerar conjuntamente sua variabilidade. Por isso foi utilizada uma faixa simultânea de referência.
A questão central não é saber se os dados reproduzem exatamente as probabilidades teóricas, mas se as diferenças observadas são plausíveis sob o modelo probabilístico.